domingo, 13 de julho de 2008

Reclama mas faz!

O título deste texto foi motivado pela lembrança da máxima “rouba mas faz” pela qual ficou conhecido um famoso político do estado de São Paulo. Política é coisa complicada, envolve muito mais do que eu ou você achamos sobre ética, moral, certo e errado. Uns se elegem para votar projetos de interesse próprio, outros para garantir a impunidade, ou melhor, a imunidade assegurada pelo cargo. Outros elegem-se em nome de terceiros que lhes financiam as campanhas mas não querem aparecer e para quem o importante é influenciar o toma-lá-dá-cá de cargos públicos e o poder de decisão. Sinceramente não sei como dormem fazendo tanta coisa errada, supostamente pelo povo, quando o que fazem é justamente ferrar o povo...

Mas meu texto não é sobre política. É sobre cidadania. É um exercício para tentar entender a dinâmica dos que criticam e nada fazem. Recentemente iniciamos trabalho voluntário para melhorar nossa quadra e passamos a ter contato com esse fenômeno social. Começamos a perceber pessoas que não se comprometem ou se dedicam a nada que envolva tempo e trabalho voluntário, pior ainda: não se informam sobre o que acontece e passam o tempo apenas criticando.

Será que ninguém pensa no bem comum ou na responsabilidade social? Imagino que não devam ter muita familiaridade com termos como voluntariado ou desconhecem completamente a importância, a complexidade e o significado de viver em sociedade.

Deve ser egoísmo ou falta de visão “meter a lenha” em quem investe tempo e tenta criar uma representatividade para a comunidade. Estamos aprendendo que nossos ofícios e telefonemas em nome de todos têm mais poder do que a antiga insatisfação anônima e passiva. Nossa quadra começa a ser conhecida pelas autoridades do Distrito Federal como uma quadra organizada, que reivindica atenção e cuidado do governo e que tem voz.

Decidiu-se cobrar de cada apartamento da quadra uma taxa para ajudar com custos da recém reativada Prefeitura (Associação de Moradores). Entre esses custos há a remuneração de jardineiros fixos e a compra de material de jardinagem, pois a limpeza e a manutenção diária dos espaços verdes da quadra não são infelizmente da alçada do governo. A quadra está visivelmente melhor tratada desde o início das atividades da Prefeitura.

Há custos com fotocópias para fazer chegar aos síndicos e moradores informação sobre o que vem sendo feito e custos com um contador profissional que registra cada despesa e cada entrada de dinheiro. Há também parte dos custos de um jornal que, para ser rodado, depende ainda de publicidade e de diversos voluntários. Não pensem que não gostaríamos de fazer um jornal mais assíduo e mais atrativo. Simplesmente não aparecem voluntários para diagramar, para bater fotos, fazer ilustrações, nem nos chegam sugestões de pautas! Uma única pessoa se comprometeu a redigir notícias. Juntam-se as informações à medida que surgem e então tenta-se viabilizar o jornal, um desafio de persistência!

Dos nove prédios da quadra, um deles, o menor, decidiu que não iria aderir à Prefeitura, num gesto pelo menos preocupante de falta de coleguismo e de espírito coletivo. Entre os moradores desse prédio, um já nos procurou e começou a contribuir isoladamente, atitude fantástica e admirável, pois demonstra consciência. Ou seja, dos dezesseis apartamentos, pelo menos um já percebeu a importância de nossa mobilização.

Dos moradores que vêm contribuindo, alguns começaram a manifestar impaciência e desesperança e ameaçam parar de contribuir. Motivo: a Prefeitura não consegue acabar com os moradores de rua!!!

Gostaríamos que essas pessoas dessem sugestão de como acabar com esses intrusos que estão invadindo não só nossa quadra mas toda a cidade, uma das consequências de anos e anos da “rorização” da qual fomos vítimas e também cúmplices. Pelo que se sabe, extermínio em massa não está entre as atribuições e os objetivos de uma associação de moradores...

Ao contrário das pessoas que reclamam de tudo mas não levantam do sofá, membros voluntários da associação de moradores reúnem-se com frequência com representantes de diversas outras quadras, do Conselho de Segurança da Asa Sul, das polícias civil e militar do Distrito Federal, do Conselho Comunitário do Plano Piloto e da Secretaria de Ação Social. O assunto que mais vem à voga, entre outros ainda piores como tráfico de drogas e assaltos: moradores de rua. Todos enfrentam o mesmo problema. Ninguém conhece solução simples e definitiva.

Nos primeiros meses de atuação da associação de moradores, conseguiu-se desmontar um acampamento armado em pleno espelho d’água e, desde então, por iniciativa dos membros da Prefeitura, que telefonam, mandam ofícios, reclamam e cobram, já foram realizadas diversas diligências de funcionários da Ação Social e da polícia para retirada dos indigentes que são levados a abrigos do governo e, mais dia menos dia, acabam fatalmente voltando.

Há um fator importantíssimo a ser destacado: a lei brasileira não prevê a prisão de pessoas que não estão, em tese, infringindo lei alguma. Os mendigos argumentam o tal “direito de ir e vir” e vão se deslocando de esquina em esquina, se instalando onde conseguem comida, roupas e esmola. A sociedade não ajuda na ação das autoridades e continua mantendo essas pessoas nas ruas. Enquanto isso, os “elementos” vão sujando tudo, fazendo barulho, sexo e necessidades fisiológicas debaixo de nossas janelas.

Os colaboradores da associação de moradores, também vítimas desse mal, revoltam-se em igual medida. TODOS deveriam levantar de seus sofás e contribuir para, juntos, mudarmos essa situação. Temos que tornar pública nossa indignação! Promover caminhadas de protesto, ações de conscientização nas escolas e igrejas, e através da imprensa, para que as pessoas parem principalmente de dar esmola e de ter pena dessa gente. Só assim conseguiremos afastá-los de nossa vizinhança. Por que se instalam próximos a restaurantes, mercados e igrejas? Porque as pessoas ajudam. Que interesse teriam de sair dali? Vida fácil...

Sejamos realistas pois não é pagando simbólicos dez reais por mês (taxa da associação de moradores) que iremos sanar todos os problemas da sociedade e tornar nossa quadra uma ilha da fantasia. Brasília já não é mais a mesma e o que temos que mudar é nossa mentalidade passiva. É hora de agir e não de simplesmente reclamar sem fazer a nossa parte.

Voltando ao “Rouba mas faz” do início deste texto, propomos o “Reclama mas faz” porque ficar sentado reclamando de quem está fazendo alguma coisa é simplesmente inaceitável. Vamos parar com as críticas sem sugestões, sem comprometimento para melhorar. Ninguém da associação de moradores trabalha voluntariamente, à noite e durante finais de semana, porque acha lindo, porque ganha dinheiro – pelo contrário, muitas vezes paga-se do próprio bolso para as coisas acontecerem! Cada um deveria fazer a sua parte ou pelo menos valorizar aqueles que estão comprometidos com o bem estar de todos.

Informe-se sobre o que está acontecendo antes de reclamar. Participe das reuniões em sua comunidade. Venha reclamar conosco das autoridades, dos responsáveis pela segurança, pela limpeza urbana, pela trânsito, pela educação, pois ainda há muito a melhorar em nossa cidade! Afinal, você faz parte da sociedade tanto quanto nós.

sábado, 5 de julho de 2008

Justiça E Paz Para Todos

Em resposta ao triste acontecimento na capital federal, em que um caseiro violentou, assassinou e enterrou uma jovem dentro da própria casa, o que queremos é justiça e firmeza das autoridades. O indivíduo desequilibrado que cometeu este crime em Brasília já havia sido detido na Bahia - e solto cinco dias depois. O que podemos esperar deste sistema ineficaz?!

Primeiro de tudo: coloquem os presidiários para produzir, trabalhar oito ou mais horas por dia como todos nós fazemos. A prisão não serve de nada se não educa, se não disciplina. Que os presídios se tornem auto-sustentáveis e que a justiça poupe à sociedade o ônus de sustentar aqueles que roubam, estupram e matam. Com um sistema carcerário mais inteligente, além da economia aos cofres públicos, criariam-se perspectivas profissionais, possibilidades de reestruturação e de melhoria das condições de superpopulação das prisões. Menos rebeliões, mais vagas, dinheiro para gerir tudo isto.

Em segundo lugar, fala-se de reforma do Judiciário. Precisamos é da reforma das leis que abrandam as penas. Todos têm pena de menores que nada mais são do que profissionais mirins a serviço de criminosos inescrupulosos que os usam - e sempre os usarão - para tocar seus negócios e não serem pegos. Todos têm pena do assassino que, na prisão, comporta-se bem. E quem tem pena das vítimas?? Até quando a sociedade pagará pela ineficiência do sistema?

Criam-se mecanismos de defesa que apenas mostram o quanto não confiamos e não podemos mesmo esperar por parte do Estado. Alarmes, películas, grades, câmeras, cercas eletrificadas nos mantêm em estado permanente de sítio. Nada é feito para prevenir os crimes. Espera-se que uma tragédia como a da jovem Maria Cláudia aconteça para se discutir o que está errado.

Tudo está errado, meus amigos. Tudo e todos, inclusive nós. Não diria que o problema é a distribuição de renda pois pessoas de bem ajudam quem não tem. O problema é a falta de fiscalização e de punição a quem burla leis. E o problema maior está nas próprias leis, que precisam ser revistas, discutidas pela Sociedade. Conselhos comunitários deveriam ser criados com membros de universidades, associações de moradores, estudantes, profissionais liberais, síndicos etc. Temos que participar mais na discussão de questões que nos dizem respeito.

Inevitável não tocar no assunto em se tratando de leis, perdoem-me o pequeno desvio. O legislativo e o executivo também precisam ser revistos. Que poder é este de legislar sobre as próprias causas? Se eu pudesse votar o meu salário, claro que minha vida seria outra... Pelo amor de deus, cidadãos como eu, vamos nos mobilizar para exigir decoro e modificações nas leis eleitorais, por exemplo. Quem tem antecedentes ou processos na justiça em seu nome não poderia nem se candidatar nem ocupar nenhum cargo público! Não é o que nos exigem em concursos? Outra coisa: para policiais e diplomatas, que, respectivamente, nos representam nas ruas e pelo mundo afora, há duros concursos, cursos de formação e de reciclagem. Por que não exigimos o mesmo dos que nos representam todos os dias no Congresso e nos demais órgãos públicos??

Deixemos a política e voltemos à violência das cidades. Claro que pessoas sem perspectivas de estudo, formação e emprego se desesperam e buscam dinheiro fácil. Apenas o crime oferece isso. Quem poderia dar-lhes o exemplo de retidão e de que o trabalho duro enriquece? E quem poderia dar-lhes o exemplo de que há punição e justiça?? Que o bem compensa?? Os exemplos são poucos. Menores que crescem sem exemplos do bem, do honesto, sem noções de certo e errado têm menos chances de desenvolverem o caráter para o bem.

A cada dia constato - com pesar - que a violência, meus amigos, é também fruto de nossa incapacidade - preguiça? falta de hábito? - de fiscalizar e de exigir eficácia e transparência dos poderes públicos. A violência é também conseqüência da falta de visão empreendedora e criativa do Estado e da falta de decência, de altruísmo e de humanidade de alguns profissionais em desviar verbas...

A tristeza, o medo e a indignação atingem a todos diante de crimes hediondos como o que aconteceu recentemente em Brasília. A análise do problema é sempre muito superficial e simplista. As soluções exigiriam uma reforma muito mais profunda em toda a sociedade e inclusive na administração pública. As vítimas de nossa inércia, indolência, negligência, apatia, preguiça - como queiram chamar - somos nós, ricos ou pobres. Lamentavelmente.

Minha solidariedade à família de Maria Cláudia e a outras tantas famílias que já passaram por situações tristes. Saibam que a revolta e o sentimento de justiça ainda existem - ainda que adormecidos. Aos que gostam de pregar em termos religiosos, que deus ilumine a mente das pessoas para mudar este mundo enquanto é possível. Queremos justiça e firmeza das autoridades e paz e segurança para todos!

Debate público sobre o Ensino Superior

Na edição nº 32 da revista da ABRUC – Associação Brasileira das Universidades Comunitárias, fala-se das discussões sobre a Reforma do Ensino Superior. A proposta, discutida há oito meses, será submetida a consulta popular antes de ser encaminhada pelo MEC ao presidente da República. A partir da assinatura de protocolos de cooperação, contribuem para o debate entidades formadas por afro-descendentes, indígenas, mulheres, trabalhadores rurais, jovens e diferentes linhas de pensamento do movimento sindical, além de representações da área acadêmica.

Discutem-se, entre outros temas, a duração mínima dos cursos oferecidos, os critérios de classificação das instituições de nível superior, a autonomia para a criação de cursos e para a assinatura de contratos e convênios e o controle de qualidade do ensino.

Esse tipo de consulta pública é extremamente importante para permitir o exercício da cidadania e a participação de diversos segmentos em importantes discussões e reformas.

O diálogo com a sociedade deveria ser uma constante na política pública brasileira. Para isso, o povo deveria se mobilizar e se organizar em grupos temáticos e regionais para participar das discussões em andamento.

A nossa democracia ainda é exercida de modo tímido e às vezes até preguiçoso... uma pena...

(2005)

Educação para políticos, por que não?

Para presidente da República, governador, deputado e senador federal, ensino médio completo. Para vereadores e prefeitos, ensino fundamental. Essa é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada recentemente pelo deputado federal Carlos Manato (PDT-ES). Se aprovada, representará um enorme avanço para o país. Se...

Muitos condenam esse tipo de proposta por a considerarem preconceituosa, uma vez que restringiria o acesso a cargos eletivos a pessoas que tiveram a oportunidade de estudar. É bem verdade que, num país com tantas desigualdades, arrisca-se a cometer injustiças quando o assunto é o acesso à instrução. Conselhos comunitários, associações de classes e outras entidades poderiam abrigar os “sem diploma” – há de se criar mecanismos para a participação de todos os que tenham idéias e queiram agir pelo social.

De todo modo, cargos públicos exigem conhecimentos de gestão, economia, administração, políticas públicas e capacidade de análise crítica de dados e de informações. Além disso, certas características poderiam ser citadas como desejadas ou inerentes à função: discernimento entre certo e errado, ética, moral, retidão de princípios, objetividade...

Todos que se candidatam deveriam saber ler para estudar as leis, as normas, os livros e os projetos existentes e para analisar propostas e reivindicações que lhes são apresentadas; deveriam saber escrever para redigir idéias e apresentar novos projetos; deveriam saber pensar e entender os vários aspectos de um problema a fim de buscar as melhores soluções; deveriam saber administrar. Claro que diplomas não comprovam esse tipo de aptidão. Não basta tampouco ter assessores competentes e graduados para cuidar das formulações intelectuais e do operacional. É preciso visão e preparo para assumir certas responsabilidades, para participar de discussões e de estudos sobre o destino do país.

A educação tem que ser vista como instrumento de crescimento. Crianças cujo sonho é se tornar políticos passariam a se dedicar mais ao estudo para atingir esse objetivo.

O que se pretende com a busca da escolaridade mínima é fazer com que os homens públicos se preparem melhor, é evitar a improvisação. Infelizmente muitos se elegem pensando nos salários, benefícios e imunidade muito mais do que em desenvolver um trabalho voltado à sociedade. Mas a escolaridade nada tem a ver com esse fato, visto que alguns desses “profissionais do voto” têm diplomas...enfim...

Se a emenda passasse, ainda faltaria exigir formação específica e continuada dos políticos. Cursos preparatórios para os candidatos e de reciclagem para os eleitos, a serem ministrados em escolas de administração pública como a ENAP, por exemplo. No currículo, seriam oferecidos módulos de formação administrativa, ética, moral, cívica, jurídica, econômica e tantos outros temas necessários a quem se dedica ao coletivo, ao público, à Nação.

Ah... mas não seria apenas isso... faltaria ainda exigir assiduidade... bons resultados... menos recessos, mais votações. E para assegurar que todo o conhecimento fosse bem utilizado e rendesse mais e melhores frutos, quem sabe um dia “as casas” trabalhassem quarenta horas semanais, com férias de trinta dias por ano? Sem recessos nem sessões – e pagamentos – extras...

Educação para todos e principalmente para os políticos ! se não exigirmos o exemplo vindo de cima, como continuaremos administrando uma sociedade sem exemplos?

Impotência - pelo "planejamento familiar"

Hoje gostaria de contar a história de Maria: brasileira, pobre, trabalha em Brasília e vive numa cidade de Goiás. Tem 42 anos e acaba de dar à luz ao seu sexto filho. Trabalhando como diarista – opção que lhe rende um salário melhor mas que não lhe dá nenhuma segurança, Maria um dia me pediu ajuda para ligar as trompas! Contou-me que é complicado, que não se deu bem com a pílula e a burocracia é tanta que, mesmo que o parto fosse cesariana, não ligariam pois ela teria primeiro que entrar numa fila e que isso levava tempo...

O que eu poderia fazer para ajudá-la, meu deus?! Isso é ainda por cima ilegal!! Fiquei angustiada desde então. Soube que dois de seus filhos têm dificuldades de aprendizado. Pela idade, pela quantidade de filhos e pelas circunstâncias, imagino que ela teria prioridade na tal fila...enfim...

Na noite que foi para o hospital, o pai da criança – que não é o mesmo dos outros filhos – me ligou informando onde ela tinha sido internada. Comecei a telefonar para o tal hospital na esperança de sensibilizar as pessoas para o problema mas o telefone estava ocupado e continuou ocupado por horas. Desisti. Nem resolveria tentar. Nem poderia estar tentando!!

Que sistema é este que não ajuda pessoas nessas circunstâncias? Por que não prescrevem a ligadura no pré-natal e resolvem de vez o problema? Idade, quantidade de filhos, crianças com problemas e baixa renda familiar já são argumentos irrefutáveis! Que a interessada assine um termo se responsabilizando pela decisão perante a lei. Até quando outros decidirão pelo indivíduo interessado?

Continuo não acreditando num país que não faz uma política de controle de natalidade ostensiva – termo que, por lei, é proibido! Que se faça, então, o tal “planejamento familiar”. Ninguém fala sobre o assunto, por que??? Famílias passando fome com 6, 8, 10 filhos! O “Fome Zero” pouco ajudará enquanto ninguém pensar em diminuir a taxa de natalidade entre os que não têm condições. Criminalidade, drogas, problemas sociais que crescem em proporção geométrica... Por que, meu deus, não ajudam as pessoas a terem menos filhos?? Distribuir camisinhas infelizmente não basta – homens recusam-se a usá-la. Imagino que a gravidez seja o problema menor, com a proliferação da Aids e de doenças sexualmente transmissíveis...

Fico mais abismada é com a atitude retrógrada da igreja (neste momento de revolta, não acho que a instituição mereça ter seu nome escrito em maíuscula), cujos representantes pregam contra a camisinha, contra os métodos contraceptivos. A miséria e as doenças às quais estão expostas as populações sem recurso e sem informação não os atingem. Que podem saber de sexo, de filhos, de família, de miséria os que vivem enclausurados e não têm experiência no assunto?! Francamente, não aceito a atitude desumana das pessoas que não fazem nada para conter o avanço das DSTs e o aumento da miséria e de suas conseqüências sociais. Não posso crer naqueles que não evoluem, que não aceitam avanços da ciência, que não acompanham as mudanças na sociedade, que não entendem que a fome, a pobreza e as desgraças podem ser minimizadas com inteligência e racionalidade.

Não adianta ensinar Maria a usar camisinha se o pai desta criança – ou das próximas –não aceitar usar. Não adianta dar conselhos, rezar. Comprei algumas roupinhas para o bebê e lamentei a minha impotência – e a do sistema – em ajudar.

Estresse

Estou de licença médica com labirintite e nem deveria estar escrevendo, portanto tentarei ser breve! Dizem que a labirintite pode ser desencadeada por estresse. Este é sem dúvida o mal do século. Quem tem estresse, pode desenvolver depressão, angústia, pode engordar ou emagrecer, perder cabelo, roer as unhas, ter insônia, problemas cardíacos, dor nas costas, dor de cabeça... a lista de estragos pode ser interminável! E, o pior, os estressadinhos ficam não raras vezes sem paciência, ansiosos, em suma, insuportáveis.

Você já se pegou com pressa, até mesmo de férias ou num fim-de-semana? Já ficou irritado com um carro empacando em sua frente e quis ultrapassar – até mesmo pela direita? Cuidado, isso pode ser estresse...

Tenho observado que as pessoas estão ficando cada vez mais impacientes, intolerantes. Nos mais novos, isso é sinônimo de imaturidade, nos mais idosos, de senilidade. Mas na idade adulta, não há desculpa. Falta de educação, de respeito ao outro, de auto-controle. Gente assim também me estressa...

Mas há os seres provocadores de estresse. Convenhamos que é aceitável ser estressado quando se tem que enfrentar coisas assim... para ilustrar, vou contar sobre a minha quadra. Além do barulho de vizinhos hiperativos e de cães mal-educados e histéricos, enfrento os poréns de se viver numa “quadra modelo”, fantástica para quem a projetou e para quem não mora aqui e apenas faz uso dela. Na quadra há uma escola-classe e uma escola-parque, idealizadas para atender crianças que moram nas redondezas mas, com a decadência do ensino público, hoje atendem apenas crianças cujas famílias não podem pagar escola particular e que vêm de outros bairros. Na quadra há também o teatro da escola-parque e o centro cultural que oferece espaço para exposições e shows, genial para jovens na fase “tenho casa, mas prefiro ficar na rua”.

O estresse não é apenas pelo barulho das buzinas frenéticas e enlouquecidas dos pais e Vans que vêm buscar os moleques na escola. É também da saída do teatro, depois das dez da noite, quando as pessoas vêm buscar seus carros e esquecem que pessoas moram – e dormem – naquele prédio. O estresse provém igualmente do rebuliço da galera jovem que entra e sai do espaço cultural, se instala nos bancos e gramados na frente e atrás dos prédios, bebe, come, canta, grita, ri, chora, passa mal e só vai embora muito tarde da noite, isso quando não sai em disparada à chegada do baculejo da polícia. Legal, pessoal, juventude passa, é preciso se divertir mas não esquecer que pessoas moram ali e têm o direito de querer descansar quando estão em suas casas. Divirtam-se mas respeitem as pessoas – e que esse respeito seja mútuo – e respeitem o local, não deixando os gramados imundos de latas, garrafas, vidro quebrado, papéis, papelão, papelotes, camisinhas... É um espaço de todos, para ser utilizado e não inutilizado.

Esse estresse é passageiro... e o que dizer de estresses permanentes? Quem não se estressaria com vizinhos com problemas auditivos (ou mental) que vêem televisão ou acompanham partidas de futebol aos berros? Ou que batem pregos à meia-noite? Ou que andam dia e noite de sapato de salto?... E como não se irritar com um cachorro que uiva e late até o dono se esgoelar para mandá-lo calar a boca? Esse mesmo cão late para todos que passam na rua e, mais ainda, quando vê outros cachorros... ah cachorrinho que tenho vontade de esganar quando quero dormir um pouco mais pela manhã!!

Nem preciso buscar motivos para me estressar, eles surgem naturalmente... o chato é saber que as pessoas estão tão envolvidas em seus afazeres que nem percebem que incomodam os outros. Será que se importam?

Gostaria que a Lei do Silêncio, que só existe na teoria, como convenção social, fosse ensinada nas escolas e que o respeito ao outro também fizesse parte dos currículos. Para quem não vai mais à escola, poderíamos quem sabe distribuir uma cartilha de bons modos... Não seria fantástico ter a paz estabelecida de dez da noite às dez da manhã?!

Eu mesma me flagro estressando à toa. Perdão, leitor, se trouxe ao blog este “recito de uma estressada”! Vejo, observando ao meu redor, que a saída talvez seja ficar indiferente, não ligar para nada nem ninguém. Assim, parece que se sofre menos. Como já dizia um dos personagens do espirituoso Fernando Sabino: “não analisa, não!”

Volto ao meu repouso que poderia ser bem mais prazeroso e efetivo se morasse numa casa sem vizinhos grudados e arredores tão turbulentos... Viver em sociedade é um exercício – numa sociedade sem regras, sem educação, um exercício de paciência!

Brasília, 2005
2008: a falta de educação generalizada lamentavelmente continua...

Sangue de Jesus tem Poder

O fato: às terças-feiras e domingos, de 19h30 às 22 horas, um grupo de evangélicos fervorosos reúne-se numa sala de aula de uma escola pública situada numa região residencial.

A polêmica: venho a vós para clamar pelo direito à paz e a não acompanhar nenhum credo enquanto estiver dentro de minha casa.

Respeito a crendice e a credulidade dos indivíduos mas não considero apropriado fazer tal uso de um espaço escolar, a duzentos metros de um prédio residencial, sem qualquer isolamento acústico, ainda mais quando a oratória atinge altos índices de decibéis. Para o agravamento da situação, o cantor entusiasmado utiliza um microfone numa pequena sala...

Pela liberdade de credo, evidentemente não nos cabe questionar a repetição, a incoerência de certas expressões empregadas, o tom agressivo e gritante da fala, as constantes referências ao mal e ao satanás, os apelos pelo dízimo para construir a nova igreja – lamento mas ouço cada palavra sem querer e sem fazer qualquer esforço, mesmo com as janelas fechadas.

Faço sinceros votos para que consigam rapidamente atingir o objetivo e partam para um local mais adequado. Ou que a direção da escola entenda como errada a concessão do espaço para esse tipo de atividade. O ensino público é por princípio laico e a utilização do espaço escolar para outras atividades, em horários após o expediente, deveria ser condicionada a uma consulta prévia aos moradores locais.

Pela paz, pelo sono, pelo descanso, oro e apelo ao uso do bom senso.

Brasília, 2006.

2008: 2 anos depois, os evangélicos deram um tempo. Convém sempre lembrar que o Estado é laico e escolas públicas - principalmente se localizadas em área residencial - não são igreja.