sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O eleitor que acredita estar pensando por conta própria

Psicologia do cotidiano -
(Rafael Bianco, Out 26)


Como emoções, vieses e manipulação da informação moldam o voto

O vídeo viral
Um vídeo chega ao grupo da família. Trechos cortados, música tensa, uma legenda: “Olha o que ele realmente pensa”. Você sente o calor subir e compartilha em dois cliques. Meia hora depois, alguém manda uma checagem: o trecho vem de uma fala mais longa, e o sentido muda. Você pensa “essa agência de checagem é tendenciosa” e volta ao vídeo, procurando outros motivos para manter o que já concluiu.

Troque o candidato e a cena funciona igual para qualquer lado. Por isso não vou adivinhar em quem você vota. Vou fazer uma pergunta mais incômoda: como distinguir uma conclusão que veio da avaliação de evidências de uma conclusão produzida por processos mentais que você nem percebeu que estavam em curso?

A tese deste texto: o eleitor raramente é enganado por falta de inteligência ou de informação. Ele também é influenciado pelos mecanismos que usa para entender o mundo, e esses mecanismos podem ser explorados. Mas “podem ser explorados” não significa “você é uma vítima passiva”. Significa que dá para aprender onde eles falham.

O cérebro não recebe a política de forma neutra
Ninguém processa tudo. Atenção é um recurso escasso, e a memória reconstrói em vez de gravar. Para decidir, usamos heurísticas, atalhos como julgar a probabilidade de algo pela facilidade com que exemplos vêm à mente (Tversky & Kahneman, 1974). Atalhos não são defeitos: Lau e Redlawsk (2001) mostraram, em experimentos, que eleitores que usam sinais simples (partido, aparência de competência, apoio de pessoas confiáveis) frequentemente votam de forma coerente com seus valores, embora o desempenho piore em contextos complexos ou enganosos.

O problema aparece quando o ambiente explora o atalho. Se um escândalo domina a semana, ele parece mais frequente do que é. Uma pesquisa eleitoral de 2 pontos de diferença, dentro da margem de erro, vira “fulano disparou”. Um indicador econômico sem denominador (“mil empregos perdidos” em um mercado de milhões) parece enorme.

Uma ressalva honesta: o modelo do “eleitor irracional” também é caricatura. Achen e Bartels (2016) argumentam que o voto tem forte componente de identidade de grupo e de avaliações de curto prazo, mas essa leitura é debatida. Aqui, o ponto é mais modesto: atalhos funcionam em certos ambientes e falham em outros.

O livro de Lakoff (2008) acrescenta uma hipótese influente: a de que enquadramentos e metáforas ativam valores e direcionam a atenção. A ideia de que a linguagem molda o que parece relevante é amplamente apoiada na pesquisa de comunicação; a tipologia moral mais específica de Lakoff é uma proposta interpretativa, não uma classificação comprovada de todos os eleitores.

Quando pensar se torna militância
Raciocínio motivado é a tendência de avaliar evidências em função da conclusão que já queremos (Kunda, 1990). Em experimentos clássicos, Taber e Lodge (2006) observaram que participantes avaliavam argumentos congruentes com sua posição prévia como mais fortes, contra-argumentavam os contrários e, ao escolher fontes livremente, buscavam as que confirmavam o que pensavam. Esse efeito foi mais forte entre quem tinha convicções mais firmes e mais conhecimento político. Informação não vacina; às vezes fornece munição.

O mecanismo emocional por trás é a dissonância cognitiva (Festinger, 1957): sentimos desconforto quando fatos ameaçam algo em que investimos, e o caminho mais barato costuma ser reinterpretar o fato, não mudar a crença. Nickerson (1998) reúne décadas de evidência de que buscar o que confirma é um padrão amplo.

Imagine duas notícias sobre desvio de verba, uma sobre o político que você admira e outra sobre o que rejeita. Para o primeiro você pergunta “qual a fonte? isso foi provado?”. Para o segundo, “claro, sempre soube”. O padrão de prova mudou, e a evidência é a mesma.

Cuidado com a leitura preguiçosa: rejeitar uma informação não prova viés. Pode haver boa razão (fonte ruim, dado sem contexto). O sinal de alerta é a assimetria: o critério que você usa muda conforme quem é favorecido. Há evidência de que esse viés aparece em diferentes posições ideológicas (Ditto et al., 2019), embora a comparação de magnitudes seja disputada. Druckman (2012) também lembra que o efeito pode ser menor quando as pessoas são incentivadas a buscar precisão.

Emoções não são todas iguais. Na teoria da inteligência afetiva (Marcus et al., 2000), a ansiedade tende a aumentar a atenção a informações novas e a disposição de reavaliar, enquanto o entusiasmo tende a reforçar hábitos e lealdades. Brader (2005) encontrou, em experimentos com anúncios políticos, que apelos ao medo e ao entusiasmo produziam efeitos diferentes em atenção, busca de informação e mobilização. Westen (2007) defende que campanhas baseadas só em dados falham porque ignoram o papel das emoções; é uma tese estratégica influente, mas deve ser lida como proposta, não como lei.

O ponto prático: o conteúdo carregado de indignação circula mais. Brady et al. (2017) mostraram, em dados do Twitter, que palavras morais e emocionais aumentavam a difusão de mensagens, sobretudo dentro de grupos ideologicamente próximos. Isso é correlação observacional, e não diz que raiva produz falsidade.

Essa é a distinção central: sentir raiva não torna uma afirmação falsa, nem verdadeira. A pergunta útil é “a intensidade do que sinto é proporcional à força da evidência que tenho?”.

Como mídia e campanhas direcionam a interpretação
Três conceitos costumam ser confundidos:

Agenda-setting: influência sobre quais assuntos ganham atenção (McCombs & Shaw, 1972).
Framing: a maneira como um tema é apresentado, destacando certos aspectos e omitindo outros (Entman, 1993).
Priming: quando a saliência de certos temas muda os critérios com que avaliamos líderes (Iyengar & Kinder, 1987).

Nada disso é, por si só, mentira. Toda manchete enquadra; toda edição seleciona. Vale separar: escolha editorial legítima, persuasão assumida (propaganda eleitoral), seleção tendenciosa, erro jornalístico, desinformação deliberada e manipulação emocional sem falsidade explícita. Tratar tudo como “a mídia manipula” apaga diferenças que importam, e veículos com padrões de correção transparentes não são equivalentes a páginas anônimas. Imagens sintéticas e vídeos editados acrescentam uma camada: a aparência de prova passa a ser fácil de produzir.

O efeito da verdade ilusória descreve que afirmações repetidas tendem a ser julgadas mais verdadeiras, em parte porque ficam mais fáceis de processar (Hasher et al., 1977). Familiaridade é lida como sinal de verdade. Quando a mesma alegação chega por três conhecidos, parece confirmada, mesmo sendo uma única origem replicada.

Correções funcionam, com limites. Uma revisão mostrou que a informação falsa pode continuar influenciando o raciocínio após ser corrigida (Lewandowsky et al., 2012). Já o famoso “efeito backfire”, em que a correção reforçaria a crença errada (Nyhan & Reifler, 2010), foi buscado em 52 temas e mais de 10 mil participantes por Wood e Porter (2019), que não o encontraram. Conclusão prudente: corrigir geralmente ajuda, a persistência existe, e o efeito reverso é raro. Para quem comunica, vale repetir o fato verdadeiro mais do que a alegação falsa. Para quem consome, nenhuma ferramenta isolada garante a verdade: checagem, dado primário e fontes independentes se complementam.

Bolha, algoritmo e pertencimento
Somos animais de grupo. A teoria da identidade social (Tajfel & Turner, 1979) explica por que a identificação com um grupo influencia o que aceitamos. A polarização afetiva, a antipatia crescente entre grupos partidários, é distinta de discordar de ideias (Iyengar et al., 2019). Nas redes, aprovação social recompensa quem posta o que o grupo gosta de ouvir.

Mas cuidado com o determinismo. Em um grande experimento durante a eleição americana de 2020, trocar o feed algorítmico de Facebook e Instagram por feed cronológico mudou bastante o que as pessoas viam e o tempo de uso, mas não alterou de forma significativa polarização ou conhecimento político no período de três meses (Guess et al., 2023). Isso não absolve plataformas, e o estudo tem escopo limitado, mas mostra que “o algoritmo radicaliza todo mundo” é simplificação. Estar cercado de opiniões parecidas não é o mesmo que viver isolado de perspectivas diferentes.

Há dois erros simétricos. Um é culpar só o indivíduo (“só cai quem quer”). O outro é tratá-lo como incapaz (“o povo é manipulado”). Habilidades individuais, história de aprendizagem, identidade, arquitetura das plataformas e incentivos políticos interagem. Bruter e Harrison (2020) lembram que votar tem um significado psicológico e social que vai além de comparar propostas. Power (2024), embora estude sobretudo o comportamento de políticos, reforça que normas e incentivos mantêm padrões; mudar comportamento muitas vezes exige mudar o ambiente.

Por isso a defesa tem duas pernas: habilidades pessoais e ambientes que favoreçam precisão e responsabilização. Há evidência de que inocular as pessoas contra técnicas de manipulação (linguagem emocional manipulativa, falsas dicotomias, bodes expiatórios) melhora a identificação dessas técnicas e a qualidade do que compartilham, em diferentes posições políticas (Roozenbeek et al., 2022). E atenção à acurácia pode reduzir o compartilhamento de falsidades (Pennycook et al., 2021).

Um último cuidado: o “efeito de terceira pessoa”, a crença de que os outros são mais influenciados pela mídia do que nós (Davison, 1983), é o motivo pelo qual este texto provavelmente fez você pensar em alguém específico. Reconhecer vieses nos outros é fácil. Percebê-los quando favorecem o que você já acredita exige prática, não só compreensão. Autonomia política não é eliminar emoção nem alcançar neutralidade impossível: é distinguir o que sinto, o que acredito, o que sei e o que as evidências permitem concluir.

Fechamento
O objetivo dos exercícios abaixo não é produzir eleitores sem ideologia, mas pessoas mais capazes de avaliar informação, reconhecer incerteza, corrigir erros e aplicar critérios consistentes às próprias posições, principalmente quando elas parecem corretas.

Fonte: Psicologia do Cotidiano, por Rafael Bianco - no Substack.



 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Debate futebolístico

(imagem gerada por IA)

Lamentável como o debate político no Brasil tem baixado o nível. 

Depois de ver o show de insultos que foi o primeiro debate presidencial ao segundo turno das eleições 2026, chego à conclusão de que a melhor estratégia seria não deixar os candidatos livres para falarem aleatoriamente e sim fazer-lhes perguntas e avaliar se sabem responder, se sabem ouvir, se se importam com quem está assistindo e querendo conhecer suas respostas e propostas. 

Quem faz monólogo ou discursa fugindo de pergunta parece uma máquina ou um ser egocêntrico sem qualquer espírito coletivo -- algo que aliás seria primordial em quem se propõe a nos representar, a gerir um país.

Antiético e desrespeitoso o oponente aparecer gesticulando em segundo plano enquanto o candidato atual presidente falava.

Formato ruim do cenário, que permite essa distração estudada pelos marketeiros e muito desconfortável para quem quer assistir e prestar atenção ao que se diz.

É clara a estratégia de Flavio (sobrenome omitido para não falar do movimento que usa o nome como marca) de só fazer ataques pessoais e de fugir de todas as perguntas. 

Demonstrou o mesmo talento desagradável do pai de imitar e tentar ridicularizar os outros. Ignorou solenemente tudo que lhe perguntavam e falou para o eleitor o que todos querem ouvir, treinado para trazer soluções sem explicar como viabilizá-las e prometendo coisas que dependem muito mais de leis do que de um presidente da república. A agressividade virou algo pessoal e sabemos quem foge e quem fica quando o assunto é justiça. 

Flavio é o representante da turma cuja intenção é brigar, afirmar e exibir virilidade e pseudo superioridade. Com violência verbal, essa gente aposta na revolta que suscita em seus seguidores, que acabam brigando em seu nome, poupando-lhes de sujarem as mãos. Exemplo disso são os coitados presos pela raiva que eles semearam nas redes. 

É essa turma que discursa promovendo revolta e quebra-quebra e responsabiliza terceiros por coisas de sua autoria, como as fake news que atacam a integridade e reputações há anos, vide Manuela d'Avila e Maria do Rosário, para citar apenas dois alvos. 

A tática do extremismo consiste em jogar no outro atributos aplicáveis a si (corrupção, por exemplo), em criar demônios assustadores (comunismo, lgbts pedófilos, intelectuais anarquistas e perigosos) para alimentar o pânico e afastar ameaças a seu projeto de enriquecimento e poder. Nesse fogo cruzado, ao invés de debate, apresentação de soluções, tivemos apenas troca de acusações e de denúncias não apuradas. 

Quem ignora perguntas sobre questões importantes demonstra não se importar com os eleitores e só isso já desmerece o voto.

Sobre o desafio de abrir sigilo telefônico e bancário proposto pelo atual presidente, seria fantástico se isso fosse uma obrigação permanente de qualquer pessoa ocupando cargo eletivo e gerindo orçamentos públicos. Pena que não vai dar em nada -- o desafiado logo fugiu pela tangente -- o que terá a esconder? Seria ótimo conhecer a fundo o caminho do dinheiro que passa por essa conta, que aparentemente gere recursos de múltiplas fontes, provenientes da genialidade empresarial que explicaria seu enriquecimento e o patrimônio incompatível com a renda.

A corrupção não se resolverá sem automação e real fiscalização de todos os processos de compra, venda e pagamentos com verbas públicas e a devida e severa punição a infratores. E a política continuará abrigo de pessoas com caráter duvidoso enquanto for sinônimo de imunidade, privilégios e verbas de gabinete vultosas.

Desejemos melhor preparo, mais conteúdo, mais ética e menos sordidez das futuras gerações de candidatos e torçamos para que nossa soberania, nossa democracia e nossos direitos nunca sucumbam a ameaças trazidas por projetos de poder sectários, religiosos ou estrangeiros. 

Ao final do debate, ouvia-se o furor de torcidas de futebol, querendo ganhar no grito o que deveria ser ganho com estudo, trabalho, ética e dignidade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Escrito sem IA

Conteúdo escrito por um humano, brasileiro. Não por IA, não por um robô.

Por que achar que todas as universidades federais são antros de promiscuidade, algazarra, comunistas? São instituições com excelentes professores e cursos, onde nem todos conseguem entrar, pois precisa ter boas notas para ingressar. 

Existem faculdades particulares e institutos federais de qualidade para atender quem não entra nas universidades públicas. 

Precisamos sim é de mais programas de bolsas, investimentos privados em pessoas com potencial que não podem pagar cursos privados. Já existe a linha de crédito que empresta dinheiro aos estudantes nessa situação, mas ainda é pouco.

Devemos investir na educação -- do ensino fundamental ao ensino técnico e superior, adequando currículos ao novo cenário mundial, em tempos de IA.

Por que acreditar que o comunismo vai tomar seu apartamento, seu carro, seu dinheiro no banco? Quem fez isso nem era de esquerda, inclusive. 

Se você tem terras, cuide delas. As propriedades ocupadas pela reforma agrária devem ser propriedades improdutivas. Devemos exigir rigor no controle de como isso é feito ao invés de apenas demonizar o MST.

Por que achar que o Brasil vai virar uma Venezuela?Sendo que em sucessivos governos de esquerda isso nem chegou perto de acontecer, pelo contrário, luta-se para proteger nossas reservas naturais, nossa agricultura, nossa indústria, valoriza-se nosso país acima de outros e abre-se cada vez mais para o capital estrangeiro. 

O que precisamos é exigir mais rigor no controle de gastos e maior incentivo fiscal e tributário a produtores rurais e  empreendedores brasileiros, bem como desenvolver pesquisa, fomentar a inovação, investir na educação, na indústria brasileira e na infraestrutura intermodal para reduzir o chamado custo Brasil. E atacar a especulação bancária e os altos juros, que endividam quem não consegue viver com o que ganha.

Por que apostar fichas num candidato limitado (apesar dos diplomas), que representa o extremismo religioso e flerta, de modo cordato e submissivo, com a potência que cobiça nossas riquezas minerais, nosso petróleo? Por que os EUA estariam mandando dinheiro para "defender a democracia", sendo que no fundo o que se percebe são manobras da direita para coibir investigações de corrupção e manipular processos envolvendo simpatizantes ou "colaboradores" daquele país. 
O real interesse norteamericano não é a democracia (haja vista o atual regime de exceção), mas o mercado de armas, os minérios e  lucros que certamente não terão como destino o Brasil.

Amamos o pix e esse sistema está incomodando os EUA, pois está reduzindo o lucro das operadoras de crédito americanas. Queremos que o pix acabe?

Sempre fomos um país pacifista, com tradição na diplomacia internacional como país moderador. Por que flertar com armas? 

Não devemos sobretudo deixar pessoas imaturas emitirem opinião em nome do país, sendo que política externa e multilateralismo exigem estudo, preparo e contexto muito maior do que ideologia partidária e interesses pessoais e particulares. Não é à toa que o curso preparatório para a diplomacia exige tanto estudo.

Devemos sim combater o crime organizado, que inclui as milícias, as organizações criminosas, o narcotráfico, os traficantes de armas, e todos que lavam dinheiro sujo ou dinheiro público desviado. 

Devemos exigir punição severa a todo tipo de crime e agravação de pena para desvio de dinheiro destinado a saúde, segurança e educação.

Devemos exigir automação de processos de pagamentos e contratações públicas, com mais controle, mais agilidade e menos burocracia. Desburocratizar tudo que atrapalha os cidadãos honestos em seus negócios.

Devemos exigir maior rigor na fiscalização da destinação do dinheiro público e cortes severos em verbas de gabinete em todos os níveis (federal, estadual e municipal), assim como reduzir privilégios de ex- presidentes. Principalmente no que diz respeito a luxos, regalias e gastos absolutamente dispensáveis. 

Devemos sim exigir reforma nas estruturas onde há indicação política (acabar com isso), reforma das leis penais para não soltar bandidos recorrentes (de todos os tipos, inclusive do colarinho branco), ampliar, modernizar e tornar o sistema prisional autosustentável.

Devemos exigir reforma e modernização da estrutura fiscal, tributária. Modernização de processos produtivos e de condições trabalhistas, com base em países mais desenvolvidos, com maior PIB, maior renda per capita e melhor qualidade de vida.

Devemos sim exigir reforma política, fim do fundo eleitoral estratosférico que só beneficia alguns, igualdade de oportunidades para quem deseja exercer cargos eletivos e de fato contribuir para a sociedade, e não para quem faz da política sua vida, sua profissão, sua e de seus familiares, criando clãs políticos, eternizados no poder.

Não é demonizando o PT e trazendo o fundamentalismo religioso ao poder que vamos conseguir tudo isso. Mas exercendo nossa cidadania, exigindo do estado posicionamentos mais austeros e modernização de leis e processos. O problema não é o PT, mas o sistema que continuará ruim, mesmo mudando governos. Aliás, você já viu quantos governos de direita e de esquerda o Brasil já teve?

Em nome do horror ao comunismo, estamos querendo colocar em cheque avanços sociais, direitos civis, soberania, e fatalmente iremos  retroceder em aspectos humanos, como sociedade alegre, diversa e harmoniosa que sempre fomos, apesar dos percalços econômicos dos governos de todos os viezes políticos. 

"Em nome de deus", grande parcela da população está fechando os olhos para diversas denúncias e investigações de envolvimento da direita com o crime. Ignoram o fato de que dezenas de políticos do PL já foram cassados pelo país, por diferentes crimes de improbidade. Só isso já desabonaria essa turma.

Tenho amor no coração e não simpatizo com essa direita radical porque ela discursa para despertar e alimentar o ódio e atribui o mal ao outro, com agressividade em cada fala e gesto. Julga e condena moralmente as pessoas, mesmo que suas próprias condutas no foro privado não sejam exemplares como apregoam.

Por uma rede de grupos nos apps e de influenciadores na internet, a direita vem semeando a discórdia e a raiva entre as pessoas, desqualificando e criando ojeriza a pessoas que pensam e agem diferente. Essa doutrinação disfarçada nos vídeos espalhados pelos apps e plataformas, tem tornado a convivência entre os diferentes cada vez mais inviável no seio das próprias famílias que dizem defender.

A candidatura à presidência pelo PL não me representa nem representa pessoas simples, diversas, extratos sociais segregados, marginalizados em cada piada ou fala racista dos representantes dessa ala radical e seus seguidores. 

Eu lamento e me solidarizo quando esses segmentos  são tratados como subraça, com agressividade e menosprezo. Lamento e sofro cada vez que alguém é insultado ou agredido psicológica e fisicamente. Lamento pois também estou na mira dessas falas e não vou me omitir por viver numa bolha protegida.

Meu voto é contra o extremismo e a truculência, que o anticomunismo, o antipetismo, o antilulismo insistem em mascarar. Manipulação consentida. 

É possível ser conservador sem julgar e condenar quem é progressista. O melhor dos mundos é onde todos podem ter opiniões divergentes sem se sentirem ameaçados por justiceiros da moral à solta, batendo e matando diferentes nas ruas - e ficando impunes. Isso não é progresso. É faroeste selvagem.

Acredite na existência da maldade mascarada pelo moralismo (= hipocrisia) e desconfie do que pode estar por trás das falas excludentes, da pregação religiosa e dos jargões envolvendo deus, pátria e família. Isso impressiona e desvia a atenção das reais intenções por trás do púlpito e dos altares.

Torço para que surjam, no futuro, representantes mais dignos do que esses que aí estão para nos oferecer opção no espectro político.

Nada nem ninguém pode estar acima da nossa diversidade e humanidade.

Por mim, por meus filhos e pelos mais fracos, voto, com orgulho e consciência, contra esta direita radical.

 Outubro de 2026

sábado, 26 de setembro de 2026

Por um mundo com mais queijo, e menos ratos!

Não ia postar nada sobre política até ver alguém bem próximo a mim defender voto útil na direita. Se o voto útil for votar em miliciano, de fato, não dá pra me omitir. 

Que país essa gente quer? Violento como Rio de Janeiro? De pernas abertas para interesses externos? Extremista que incentiva violência e segregação de diferentes tipos? 

A direita dos altares e palanques tem raiva e nojinho de pobre, justamente porque vive a defender a prosperidade e o enriquecimento (nem sempre lícito, convenhamos) acima de qualquer coisa. 

Essa ala recente da direita defende o modelo de discurso "família, deus e pátria", sendo que esse lema é forjado em meio a escândalos abafados e crimes a torto e a direito.

Quem é verdadeiramente bom não deveria se sentir ameaçado com a ideia de ascensão social de classes historicamente desfavorecidas, não deveria ter ojeriza e ignorar a necessidade de existir luta de classes, a necessidade de cotas ou outros mecanismos que visam à redução de desigualdades. Porque pra mim parece óbvio: se alguém precisa brigar para ter direitos é porque há direitos sendo cerceados ou negados. 

Quem vive em meio a privilégios e não enxerga a dor e as dificuldades de quem está abaixo (ou à margem) não vai de fato compreender do que se trata. 

Existe fuzuê e bagunça na esquerda sim. Mas existe também trabalho incessante da direita de desmoralizar e desmerecer quem pensa mais à esquerda, quem defende direitos sociais e movimentos progressistas. 

A fábrica de violência moralista aposta no ataque das reputações e promove o terrorismo da moral, condenando tudo à esquerda como anticristão e mundano. 

O pavor com a visão e os valores progressistas cresce, motivado por esse trabalho de endemonização da esquerda como um todo.

Os cidadãos medianos, simpatizantes do tradicionalismo, acabam influenciados pelo falso moralismo e falso patriotismo ultraconservador e não param para enxergar que nunca vão enriquecer como seus ídolos, que cultuam sem questionamento, se distanciando cada vez mais de valores humanos e o que é pior: sem perceberem o tanto que são usados. 

Atacar o outro é querer empurrar goela abaixo que é melhor do que o outro. 
Ataques baixos apenas desviam o olhar de questões mais importantes. 

Existem famílias, fé e amor à pátria na esquerda e fora das igrejas evangélicas.
Mulheres progressistas têm muito mais empatia e compromisso com o coletivo do que mulheres submissas e servis, subjugadas pelos donos do dinheiro e das regras. 

Verdade seja dita: O sistema político e social nunca será igualitário enquanto a maioria masculina conservadora comandar as regras do jogo.

Seguidores manipulados nunca vão compreender que não passam de ovelhas a serviço de um sistema nada justo. 

Há vários recortes nesse sistema: social, racial, socioeconomico, de gênero, religioso. Todos se explicam pela busca cega por poder, status social e dinheiro. 

Nunca se tratou, pois, de amor ao próximo ("deus").

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Já fui assim!

Um menino ensaia os primeiros acordes no violão. Olha um tutorial na internet e me lembra meus tempos de revistinhas de cifras. Eu passava as tardes no violão, no cavaquinho, na gaita ou na escaleta. E assim o tempo passava e eu não me sentia tão só, no universo seguro e controlado do meu quarto.

Enquanto isso, outro menino assiste aulas de filosofia ou lê sobre o surgimento da medicina no mundo ocidental. Interesses aleatórios tanto quanto a curiosidade e a fome de conhecimento permitem. 

O filho mais velho volta da aula de luta e não perde a chance de me dar uma chave de braço ou de me imobilizar só pelo pulso. 

Mais tarde, dois se juntam pra fazer um som na guitarra. Pôsteres de rock e clássicos do cinema tomam toda a parede. Já fui assim!

Cada um no seu estilo, é mágico ver nossos filhos virando gente grande e descobrindo interesses e sonhos que já foram nossos. 

E assim a vida ganha algum sentido ou nos impulsiona na busca por um.

domingo, 13 de setembro de 2026

Alento

Tentativa trocentos e vinte de ficar sem redes sociais frustrada. Cada vez que pauso minhas redes é tentando fugir da política, de textos jogados na minha cara sobre psicologia e relacionamentos, de vídeos aleatórios, curtos, infinitos e de fala agoniante que muto pra aguentar. 

O que mais me incomoda é que, nos grupos, compartilha-se muita coisa do instagram e do facebook. Se saio das minhas contas, deixo de ter acesso a conteúdos, fico por fora das discussões ou sem saber de eventos, de amigos.

Por outro lado, não sofro tanto das ausências, da falta que as pessoas me fazem, do amor que poderia ter sido, do casal que poderíamos ter formado, da viagem que eu poderia ter feito. Fico livre dos produtos patrocinados, dos livros de autoajuda, dos cursos disso e daquilo, das ofertas insistentes de livros de receitas, dos posts que a gente acha que trarão dicas, quando na verdade estão apenas vendendo produtos, serviços e apps por assinatura, com acesso limitado na versão gratuita. 

Fujo dos textos alertando para os riscos de saúde de comer isso, aquilo, do estilo de vida que vai me matar, dos alertas para o fim do mundo e da humanidade pelo avanço da IA e a degradação ambiental. 

Fujo do fundamentalismo religioso e político, das pessoas terrivelmente evangélicas, da violência de tudo que é tipo. 

Largo o celular e vou ver os peixes, ouço os pássaros, caminho sob as árvores e piso nas folhas secas que tomam as calçadas. Até as sombras têm sua beleza e alento.

sábado, 22 de agosto de 2026

Jabuticaba nasce no tronco - Teatro


Adoro teatro contemporâneo, trocas de cenário na nossa frente, atores versáteis, fazendo vários papéis, com um simples toque na roupa, no gestual, postural, no sotaque, na entonação.
 
Performances e coreografias sincronizadas, cadeiras ao ar, mudanças de ambientes, num vai-e-vem temporal, nos transportando ao passado, de repente alternado com emoções do agora.

Lembranças, 
descobertas, 
sentimentos,  
trajetórias marcadas por abandono, 
acolhimento, 
encontro, 
pertencimento, 
o sofrer,
o amadurecer, 
o renascer, 
o envelhecer, 
o morrer.

Respiro fundo...
Obrigado, teatro!
Maravilhosa terapia da sacudida!

Léo Serra
São Paulo, 22/8/2026, depois de uma noite de sono intenso, ainda sob efeito do texto de Bernardo Fonseca e das performances potentes, fortes, emocionadas de Fabia Mirassos e da Cia EmVersao

(Espetáculo Jabuticaba nasce no tronco, Teatro Arthur Azevedo, Mooca/SP, de quinta a domingo até 6/9/2026).