domingo, 16 de agosto de 2026

O Motociclista no Globo da Morte

Todo humano pode se desumanizar em algum momento de sua existência, pode ter seus limites e valores colocados à prova, pode sucumbir. É então correto afirmar que é da natureza humana ser desumano?  Existiriam agravantes ou atenuantes para se cometer barbáries? O mais dócil e cordato ser humano pode ter um rompante e se tornar momentaneamente violento, movido por exemplo por um desejo de justiça e reparação? Nesse caso, igualaria-se aos selvagens ou teria sua fúria perdoada pela situação extrema?
Desde que o mundo é mundo, a violência atrai a atenção e a curiosidade das pessoas. Em tempos de redes instantâneas e índices de popularidade medidos por visualizações, curtidas e comentários, essa curiosidade mórbida e sórdida é ainda mais potencializada pela facilidade de acesso a imagens e áudios fortes, que incentivam  o consumo, a banalização e a espetacularização da violência. Infelizmente a notoriedade pela violência vira glamour. O criminoso virá star.
Qual o limite para se expor à violência e não se deixar seduzir por ela? Como poderíamos não nos deixar atrair pelo horror a ponto de banalizá-lo e de perder a capacidade de nos indignarmos, de nos chocarmos com ele? O perigo reside no fim da linha da civilidade, em que deixamos de nos horrorizarmos e passamos a fazer parte do horror, seja como espectadores inertes, seja como cúmplices ou apoiadores do que, de tão absurdo, simplesmente não deveria existir.
O excelente monólogo O Motociclista no Globo da Morte*, com Du Moscovis é um soco no estômago. Quem não sai do teatro desconfortável e pensativo sobre a violência e o circo de horrores diário em sociedades cada vez mais doentes ou já não é bom da cabeça ou já morreu por dentro.
* texto de Leonardo Netto e direção de Rodrigo Portella. Teatro Unip/DF, Deca produções, agosto/2026.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Assumo

Confesso que dá um enjoo, uma fraqueza enorme quando penso no tanto que gostei (gosto) da pessoa, que me pediu em namoro(!), que dizia que me amava, que era louca por mim, e que de repente disse que não queria mais. 
Nossos momentos juntos eram bons demais, dormíamos em paz, tínhamos uma conexão maravilhosa, eu imaginava (achei que ela também) um futuro juntos, envelhecer ao seu lado. Dá uma tristeza muito grande mesmo de pensar que tudo foi em vão, que não vou sentir nada daquilo de novo, arrasado de pensar que ela não valoriza nada daquilo que vivemos e sentimos, a ponto de simplesmente "deixar ir". 
Os momentos foram intensos, deliciosos e bonitos demais pra não terem sido verdade, ou pra se dissiparem no ar assim, de repente. Que tristeza, meu deus! 
Talvez eu devesse apenas pensar que foram apenas momentos, que não eram pra ser mais do que momentos. Efêmeros, frágeis, fugazes, instantâneos e finitos. Foram eternos em meus pensamentos enquanto duraram. 
Aparentemente duraram e doeram (doem) muito mais (demais) em mim.
Não escondo, não nego, porque sentimento precisa ser vivido, assumido. Isso é viver, por mais difícil que seja.

12/08/2026

domingo, 19 de julho de 2026

Sem redes!!!

Em ano eleitoral, para não ser novamente atropelado pela guerra de gregos contra troianos, resolvi fazer detox digital e não acompanhar instagram, facebook, threads, twitter, youtube e nenhuma outra rede similar. Saí de inúmeros grupos de whatsapp também. Sentindo uma sensação muito estranha de silêncio e paz, e até mesmo de solidão porque, querendo ou não, acompanhar a vida e pensamentos alheios passa uma falsa sensação de não estar só.
Tenho tido tempo para ler, me exercitar, apreciar a natureza e para pensar, ora vejam! Não sei se gosto de ter tanto tempo assim!
A vida socialmente desconectado para um geminiano é um pouco angustiante, admito. Sempre curti movimento, barulhinho bom e pessoas ao meu redor. 
Ficar sem notícias de política pode ser algo bom quando o que chega de informação revela o lado nada nobre de trocas de favores, negociações de lobby e fundos absurdos, disputas e eterna alternância no poder. Nada sobre o bem coletivo infelizmente. Por isso, ficar alheio a esse tipo de informação pode ser saudável, para esquecermos um pouco o porquê das desigualdades e da falta de oportunidades para todos. Aliás pensar em "todos" ao invés de ser um pensamento social, virou sinônimo de comunismo, um rótulo pego na origem dos regimes totalitários e opressores (algo que ainda existe, porém maquiado) e hoje usado como terrorismo e motivo de preconceito e segregação. Pensou e defendeu  o coletivo? ah você é marginal e perigoso! Perigoso para quem faz dinheiro com o sistema voltado a quem acumula riqueza e pouco se importa se isso representa manter a pobreza, a violência e tantos problemas que atingem a todos nós. Não faz sentido, mas é assim, revoltante...
Às vezes tenho vontade de comentar algo, falar sobre a vida ou divagar e não tenho o espaço que usava nas redes. Tinha virado uma espécie de agenda onde desabafava inquietudes, receios, inconformismos, sentimentos bons ou não. Mantinha contato com pessoas conhecidas com as quais não tenho link no dia a dia, não tenho o celular. Quem quiser me falar, se não tiver meu telefone, simplesmente não conseguirá me alcançar. Saudade do telefone fixo e das relações mais diretas!
Fugindo do estresse, mas também do vício de rolagem de feed, do bombardeio de publicidades e textos em sintonia com o que escrevia no whatsapp ou com trocas de reels que fazia com a namorada ou amigos inbox. Fugindo da invasão de privacidade, fugindo da superficialidade e desejando que a vida ganhe mais significado e profundidade nos contatos humanos mais diretos. Fugindo da necessidade de ver e de ser visto, porém sentindo falta de "tocar" ou "provocar" alguma reação em alguém com meus textos. O jornalismo não faz parte de minha atividade diária, porém mantinha uma satisfação em alcançar pessoas e fazê-las pensar, concordar ou mesmo discordar de mim. É uma forma de interação prazerosa, de saber que nem tudo é automatizado, IA, nem tudo são máquinas e processos anônimos e sem sentimento. 
Pessoas de carne e osso, reajam! Continuem deixando o sangue pulsar em suas veias! Não aceitem tudo que lhes impõem as leis, regras, caixinhas, maiorias, modas, trends, partidos! Que seus cérebros não atrofiem, nem seus corações se resfriem! Que ainda haja vida inteligente, intuitiva, dedutiva, sensível em cada um de nós! Amém!

Brasília, 19 de julho de 2026.

Este e outros textos passam a ser publicados em www.balaiodegatodf.blogspot.com 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Olhando para cima Tantos comentaram sobre o filme Não olhe para Cima que o jeito foi assistir. A ironia em toda a história até me divertiu, mas confesso que a realidade ali contida me incomodou, principalmente quando se descreve a que ponto somos monitorados e controlados desde 1994. Amamos toda a conectividade e interatividade, nós, brasileiros comunicativos e agregadores, mas isso nos faz presas fáceis. Viramos objetos, marionetes, mas amamos tudo isso e não ligamos. Assusta.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sem Facebook

Brasília, 15/05/2017

Tô há alguns dias sem acessar Facebook.

Mas pera lá! Pra quem este texto irá se não for pros seguidores e amigos virtuais? Talvez seja a hora de reativar meu blog...

Ah solidão e carência de se perceber sem troca alguma de curtidas ou comentários!!! Ninguém pra ver as fotos que postamos, pra reagir a reclamações ou ideias que publicamos.

Mas como era a vida antes das redes virtuais? Deixa eu tentar lembrar: ah, nos tempos de escola, sempre tinha uma melhor amiga com quem batíamos papo horas a fio pelo telefone (com fio) e isso deixava nossos pais desesperados, pensando na conta de telefone no fim do mês. Daí criaram o "salto", aquele sinal sonoro que avisava se alguém tentasse ligar e o telefone estivesse ocupado.

Ah e tinham amigos com quem saíamos pra cinema e lanchonete. E amigos que tínhamos na rua, no prédio, pra quem se interfonava, chamando pra descer e brincar. Ou amigos de cursos, esportes que praticávamos, com quem interagíamos no cotidiano.

E tinham refeições em família, quando uns perguntavam aos outros "como foi seu dia?", "o que você tá lendo?", "como foi a novela ontem?", “como está seu namoro?”ou “por que você tá triste?”.

E não podemos esquecer aquelas saídas com a turma da faculdade ou do trabalho pra falar de política ou filosofar sobre a vida numa mesa de bar.

E fazíamos encontros regulares de família, com direito a registros em fotos Kodak ou Fuji reveladas em 9 x 12 e depois em 10 x 15 cm. Ah mas antes disso tivemos os slides, exibidos em sessões projetadas na parede da sala, com os familiares comentando sobre os lugares visitados e situações vividas.

Sabíamos uns dos outros porque convivíamos, ligávamos uns para os outros, não por compartilharmos de maneira genérica nosso cotidiano numa linha do tempo aberta a conhecidos, colegas e uma rede de contatos que nem sempre reflete nossos laços mais diretos e íntimos. Aliás, pessoas distantes passam a nos acompanhar como se fossem da família, interagindo muito mais do que nossos próprios familiares. Isso leva a refletir sobre as “famílias”que vão se formando a partir de amizades, pessoas que se aproximam por compartilharem objetivos de vida e pontos de vista.

A intimidade, aliás, deixou de ser reservada, deixou de ser íntima!!! Não existe mais!

Acostumamo-nos a dizer onde vamos, com quem estamos, o que comemos, para onde viajamos, em quem votamos ou não votamos, quem odiamos, sem nenhum pudor ou cuidado. Ninguém se importa mais se palavras magoam, se ideologias têm maior valor que amizades, elos e sentimentos entre as pessoas.

Depois de alguns dias de abstinência virtual, zonza, trêmula, desintoxicando-me de um vício mais forte do que químico. Sinto-me sozinha sem o hábito de ver a vida dos outros passar no rolar da tela, e sem falar da minha vida e assim me sentir acompanhada pelas curtidas e comentários. De pensar que há pessoas que vivem sem isso e se sentem felizes! Talvez por isso vivam em paz e sejam de fato felizes...

Decidi parar ou dar uma pausa. Vinha me sentindo sozinha pelas centenas de amigos virtuais que gostaria que fossem mais reais, mais concretos. Andava cansava da enxurrada de agressões, piadas e acusações partindo da esquerda ou da direita; das correntes de "copie e cole no seu mural"; dos dias de luto generalizado e de homenagens sem fim após a morte de cada celebridade.

Como agência de notícias não há nada mais rápido do que as redes sociais, admito. As pessoas correm pra publicar as novidades, como se fossem jornalistas dando "furos" e muitos – como eu! – se informam por ali, ao mesmo tempo em que se atualizam com o equivalente virtual à revista Caras!!!

Mas as redes também funcionam para propagar boatos e têm o devastador poder de destruir vidas e reputações. Basta um mal- intencionado postar algo contra alguém que a coisa se espalha, sem nenhuma apuração. Condena-se sem qualquer análise, antes mesmo da existência de uma acusação formal. Simplesmente denigre-se a imagem de uma pessoa apenas porque o caluniador assim decidiu e propagou. Julgamentos e inquisições da era moderna...

Para suprir a falta de contato com o mundo, passei então a buscar informações nos portais de jornalismo, que se copiam e exibem os mesmos assuntos, com manchetes ligeiramente modificadas, intercalados por fofocas e curiosidades. E, claro, repletas de anúncios que nos saltam na tela, trazendo sempre artigos relacionados a nossas buscas e pesquisas recentes. Marketing direto, indigesto, inoportuno, desagradável.

Mas as redes sociais são boas mesmo é para fazer o tempo passar. Fila de banco e espera em consultório médico agora não são mais a tortura de antigamente. "Já?!", lamentamos quando chega nossa vez e precisamos nos desligar das redes e dos grupos.

Hoje, você publica uma foto e depois fica vendo quem a curtiu. Você faz uma publicação e torce para ter centenas de curtidas e comentários. Fica monitorando cada reação a suas publicações. Narcisismo, vaidade, exibicionismo? Solidão, carência? Interesse, poder, fama? A popularidade poderia significar compensação ao vazio da vida real, ou estratégia para futuros projetos que envolvam notoriedade, atestado de vida pública, pseudo-credibilidade. Ou simples alimento para a alma, troca de ideias sobre determinado tema, debate virtual, sondagem de opinião, provocação intelectual. Diversos são os usos e fins possíveis.

Alguns usam as redes para expor sua preocupação social, inspiram o altruísmo, estimulam suas redes a se engajarem em causas humanitárias, promovem campanhas solidárias ou de conscientização sobre certos temas. Aqui entramos todos nós, inconformados com as injustiças, as desigualdades, a violência, o preconceito de todo tipo. De boas intenções as redes também estão cheias. Que bom, afinal, precisamos continuar fazendo o bem e acreditando nele!

Outros divulgam dicas de segurança – ou de sobrevivência, pois vivemos no país da impunidade e dos esquemas de corrupção em todas as esferas. Com a falta de Educação e a escassez de oportunidades, quem se profissionaliza e enriquece são os golpistas e bandidos. Devemos ficar atentos e suspeitar de tudo que nos chega por mensagens, links, sites, pop-ups, enfim, golpes chegam todos os dias. Na dúvida, não clique em nada e não compartilhe!

Ah mas de todos os usos, aquele que mais me interessa pessoalmente é poder declarar o amor, seja à mãe, ao pai, aos filhos, aos amigos, irmãos, seja à mulher ou ao homem amado. Não basta sussurrar no ouvido, na hora de dormir ou nos momentos de intimidade! Falar aos quatro cantos, estampar nas paredes e muros e se declarar amante (= aquele que ama) é muito mais legal e emocionante!

Quem escreve sente tesão em falar de amor, de paixão, de alegria, de tristeza, de dor, de prazer, de sonho, de sentimento! Escrevemos para expressar emoções e também para emocionar ou provocar alguma reação em quem lê. Como hoje não se vende livro como se vendem séries de TV ou pacotes de dados, publicamos virtualmente os textos que há tempos atrás comporiam obras literárias impressas. Mas as redes sociais teriam alguma forma de compilar e salvar os textos que publicamos, com o devido crédito do autor (nós mesmos)? Ou tudo estaria fadado ao anonimato (ou à falsa titularidade atribuída a qualquer famoso), à instantaneidade e à perenidade do virtual? Afinal, nem cinzas sobram do que não se pode tocar!

Agradeço a você que leu minhas divagações até aqui! Não precisa compartilhar! Nem curtir! Se algo lhe fez refletir ou sorrir, que ótimo! Quer me chamar para uma cervejinha? Seria ótimo! Vamos esperar surgir uma cerveja virtual de qualidade! Abração!

Marília Serra

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Chão

Não sei onde estava com a cabeça quando, um dia, me apaixonei.
Na verdade, deve ter sido ali que a perdi.

Esta é a verdade, a paixão destrói neurônios, turva a visão.
Impressionante como se fica alterado sob seu efeito.
Hoje não vivo mais isso e, assim, tenho o pé mais no chão.

Claro que era bom levitar, sonhar acordado, “viajar”.
Mas cansa não conseguir controlar as emoções.
Hoje tenho total controle da razão, mas,
cá entre nós, como é triste e chato isso, não?