segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Já fui assim!

Um menino ensaia os primeiros acordes no violão. Olha um tutorial na internet e me lembra meus tempos de revistinhas de cifras. Eu passava as tardes no violão, no cavaquinho, na gaita ou na escaleta. E assim o tempo passava e eu não me sentia tão só, no universo seguro e controlado do meu quarto.

Enquanto isso, outro menino assiste aulas de filosofia ou lê sobre o surgimento da medicina no mundo ocidental. Interesses aleatórios tanto quanto a curiosidade e a fome de conhecimento permitem. 

O filho mais velho volta da aula de luta e não perde a chance de me dar uma chave de braço ou de me imobilizar só pelo pulso. 

Mais tarde, dois se juntam pra fazer um som na guitarra. Pôsteres de rock e clássicos do cinema tomam toda a parede. Já fui assim!

Cada um no seu estilo, é mágico ver nossos filhos virando gente grande e descobrindo interesses e sonhos que já foram nossos. 

E assim a vida ganha algum sentido ou nos impulsiona na busca por um.

domingo, 13 de setembro de 2026

Alento

Tentativa trocentos e vinte de ficar sem redes sociais frustrada. Cada vez que pauso minhas redes é tentando fugir da política, de textos jogados na minha cara sobre psicologia e relacionamentos, de vídeos aleatórios, curtos, infinitos e de fala agoniante que muto pra aguentar. 

O que mais me incomoda é que, nos grupos, compartilha-se muita coisa do instagram e do facebook. Se saio das minhas contas, deixo de ter acesso a conteúdos, fico por fora das discussões ou sem saber de eventos, de amigos.

Por outro lado, não sofro tanto das ausências, da falta que as pessoas me fazem, do amor que poderia ter sido, do casal que poderíamos ter formado, da viagem que eu poderia ter feito. Mas, por outro lado, fico livre dos produtos patrocinados, dos livros de autoajuda, dos cursos disso e daquilo, das ofertas insistentes de livros de receitas, dos posts que a gente acha que trarão dicas, quando na verdade estão apenas vendendo produtos, serviços e apps por assinatura, com acesso limitado na versão gratuita. 

Fujo dos textos alertando para os riscos de saúde de comer isso, aquilo, do estilo de vida que vai me matar, dos alertas para o fim do mundo e da humanidade pelo avanço da IA e a degradação ambiental. 

Fujo do fundamentalismo religioso e político, das pessoas terrivelmente evangélicas, da violência de tudo que é tipo. 

Largo o celular e vou ver os peixes, ouço os pássaros, caminho sob as árvores e piso nas folhas secas que tomam as calçadas. Até as sombras têm sua beleza e alento.

sábado, 22 de agosto de 2026

Jabuticaba nasce no tronco - Teatro


Adoro teatro contemporâneo, trocas de cenário na nossa frente, atores versáteis, fazendo vários papéis, com um simples toque na roupa, no gestual, postural, no sotaque, na entonação.
 
Performances e coreografias sincronizadas, cadeiras ao ar, mudanças de ambientes, num vai-e-vem temporal, nos transportando ao passado, de repente alternado com emoções do agora.

Lembranças, 
descobertas, 
sentimentos,  
trajetórias marcadas por abandono, 
acolhimento, 
encontro, 
pertencimento, 
o sofrer,
o amadurecer, 
o renascer, 
o envelhecer, 
o morrer.

Respiro fundo...
Obrigado, teatro!
Maravilhosa terapia da sacudida!

Léo Serra
São Paulo, 22/8/2026, depois de uma noite de sono intenso, ainda sob efeito do texto de Bernardo Fonseca e das performances potentes, fortes, emocionadas de Fabia Mirassos e da Cia EmVersao

(Espetáculo Jabuticaba nasce no tronco, Teatro Arthur Azevedo, Mooca/SP, de quinta a domingo até 6/9/2026).

domingo, 16 de agosto de 2026

O Motociclista no Globo da Morte

Todo humano pode se desumanizar em algum momento de sua existência, pode ter seus limites e valores colocados à prova, pode sucumbir. É então correto afirmar que é da natureza humana ser desumano?  Existiriam agravantes ou atenuantes para se cometer barbáries? O mais dócil e cordato ser humano pode ter um rompante e se tornar momentaneamente violento, movido por exemplo por um desejo de justiça e reparação? Nesse caso, igualaria-se aos selvagens ou teria sua fúria perdoada pela situação extrema?
Desde que o mundo é mundo, a violência atrai a atenção e a curiosidade das pessoas. Em tempos de redes instantâneas e índices de popularidade medidos por visualizações, curtidas e comentários, essa curiosidade mórbida e sórdida é ainda mais potencializada pela facilidade de acesso a imagens e áudios fortes, que incentivam  o consumo, a banalização e a espetacularização da violência. Infelizmente a notoriedade pela violência vira glamour. O criminoso virá star.
Qual o limite para se expor à violência e não se deixar seduzir por ela? Como poderíamos não nos deixar atrair pelo horror a ponto de banalizá-lo e de perder a capacidade de nos indignarmos, de nos chocarmos com ele? O perigo reside no fim da linha da civilidade, em que deixamos de nos horrorizar e passamos a fazer parte do horror, seja como espectadores inertes, seja como cúmplices ou apoiadores do que, de tão absurdo, simplesmente não deveria existir.
O excelente monólogo O Motociclista no Globo da Morte (com texto de Leonardo Netto, direção de Rodrigo Portella e no palco Du Moscovis) é um soco no estômago. Quem não sai do teatro desconfortável e pensativo sobre a violência e o circo de horrores diário em sociedades cada vez mais doentes ou já não é bom da cabeça ou já morreu por dentro.

Teatro Unip/DF, Deca produções, agosto/2026.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Assumo

Confesso que dá um enjoo, uma fraqueza enorme quando penso no tanto que gostei (gosto) da pessoa, que me pediu em namoro(!), que dizia que me amava, que era louca por mim, e que de repente disse que não queria mais. 
Nossos momentos juntos eram bons demais, dormíamos em paz, tínhamos uma conexão maravilhosa, eu imaginava (achei que ela também) um futuro juntos, envelhecer ao seu lado. Dá uma tristeza muito grande mesmo de pensar que tudo foi em vão, que não vou sentir nada daquilo de novo, arrasado de pensar que ela não valoriza nada daquilo que vivemos e sentimos, a ponto de simplesmente "deixar ir". 
Os momentos foram intensos, deliciosos e bonitos demais pra não terem sido verdade, ou pra se dissiparem no ar assim, de repente. Que tristeza, meu deus! 
Talvez eu devesse apenas pensar que foram apenas momentos, que não eram pra ser mais do que momentos. Efêmeros, frágeis, fugazes, instantâneos e finitos. Foram eternos em meus pensamentos enquanto duraram. 
Aparentemente duraram e doeram (doem) muito mais (demais) em mim.
Não escondo, não nego, porque sentimento precisa ser vivido, assumido. Isso é viver, por mais difícil que seja.

12/08/2026

domingo, 19 de julho de 2026

Sem redes!!!

Em ano eleitoral, para não ser novamente atropelado pela guerra de gregos contra troianos, resolvi fazer detox digital e não acompanhar instagram, facebook, threads, twitter, youtube e nenhuma outra rede similar. Saí de inúmeros grupos de whatsapp também. Sentindo uma sensação muito estranha de silêncio e paz, e até mesmo de solidão porque, querendo ou não, acompanhar a vida e pensamentos alheios passa uma falsa sensação de não estar só.
Tenho tido tempo para ler, me exercitar, apreciar a natureza e para pensar, ora vejam! Não sei se gosto de ter tanto tempo assim!
A vida socialmente desconectado para um geminiano é um pouco angustiante, admito. Sempre curti movimento, barulhinho bom e pessoas ao meu redor. 
Ficar sem notícias de política pode ser algo bom quando o que chega de informação revela o lado nada nobre de trocas de favores, negociações de lobby e fundos absurdos, disputas e eterna alternância no poder. Nada sobre o bem coletivo infelizmente. Por isso, ficar alheio a esse tipo de informação pode ser saudável, para esquecermos um pouco o porquê das desigualdades e da falta de oportunidades para todos. Aliás pensar em "todos" ao invés de ser um pensamento social, virou sinônimo de comunismo, um rótulo pego na origem dos regimes totalitários e opressores (algo que ainda existe, porém maquiado) e hoje usado como terrorismo e motivo de preconceito e segregação. Pensou e defendeu  o coletivo? ah você é marginal e perigoso! Perigoso para quem faz dinheiro com o sistema voltado a quem acumula riqueza e pouco se importa se isso representa manter a pobreza, a violência e tantos problemas que atingem a todos nós. Não faz sentido, mas é assim, revoltante...
Às vezes tenho vontade de comentar algo, falar sobre a vida ou divagar e não tenho o espaço que usava nas redes. Tinha virado uma espécie de agenda onde desabafava inquietudes, receios, inconformismos, sentimentos bons ou não. Mantinha contato com pessoas conhecidas com as quais não tenho link no dia a dia, não tenho o celular. Quem quiser me falar, se não tiver meu telefone, simplesmente não conseguirá me alcançar. Saudade do telefone fixo e das relações mais diretas!
Fugindo do estresse, mas também do vício de rolagem de feed, do bombardeio de publicidades e textos em sintonia com o que escrevia no whatsapp ou com trocas de reels que fazia com a namorada ou amigos inbox. Fugindo da invasão de privacidade, fugindo da superficialidade e desejando que a vida ganhe mais significado e profundidade nos contatos humanos mais diretos. Fugindo da necessidade de ver e de ser visto, porém sentindo falta de "tocar" ou "provocar" alguma reação em alguém com meus textos. O jornalismo não faz parte de minha atividade diária, porém mantinha uma satisfação em alcançar pessoas e fazê-las pensar, concordar ou mesmo discordar de mim. É uma forma de interação prazerosa, de saber que nem tudo é automatizado, IA, nem tudo são máquinas e processos anônimos e sem sentimento. 
Pessoas de carne e osso, reajam! Continuem deixando o sangue pulsar em suas veias! Não aceitem tudo que lhes impõem as leis, regras, caixinhas, maiorias, modas, trends, partidos! Que seus cérebros não atrofiem, nem seus corações se resfriem! Que ainda haja vida inteligente, intuitiva, dedutiva, sensível em cada um de nós! Amém!

Brasília, 19 de julho de 2026.

Este e outros textos passam a ser publicados em www.balaiodegatodf.blogspot.com 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Olhando para cima Tantos comentaram sobre o filme Não olhe para Cima que o jeito foi assistir. A ironia em toda a história até me divertiu, mas confesso que a realidade ali contida me incomodou, principalmente quando se descreve a que ponto somos monitorados e controlados desde 1994. Amamos toda a conectividade e interatividade, nós, brasileiros comunicativos e agregadores, mas isso nos faz presas fáceis. Viramos objetos, marionetes, mas amamos tudo isso e não ligamos. Assusta.